minha doppelgänger.
um corpo dividido não sangra sozinho.
ela enfia os dedos gélidos na minha boca, toca minha língua como se estivesse sentindo calor pela primeira vez.
você sempre esteve aí?
nada ao meu redor, a piscina infantil no quintal de ladrilhos da minha casa. ela circula como um tubarão. talvez eu nunca tenha tido medo de animais marinhos cheios de dentes; talvez fosse ela me rodeando desde a água que dividimos no saco amniótico.
ela tem muitos olhos, mais do que consigo contar. tantos quanto os fios de cabelo que dividimos. a carne da placenta que devoramos juntas. as camadas e mais camadas que ela arranca de dentro de mim à força, como uma matrioska sem fundo.
você sempre esteve aí.
a substância ilícita que divide meu cérebro me permite te ver por algumas horas, te ouvir falando com as pessoas. eu sou a voz desesperada e infantil atrás de você, implorando para ficar à frente. quero acreditar que eu sou a original, você a cópia — minha boneca sem rosto — mas é você quem veste a minha máscara.
que bom que você está aí.
quantas vezes me chutaram para que você precisasse nascer?
você sai pelos meus olhos com as mãos, se agarra à vida que eu tento rejeitar de forma débil. late de volta. não deixa que ninguém me chute novamente. me coloca uma focinheira, diz que eu só preciso descansar, que tudo vai ficar bem.
que bom que nascemos juntas.
eu visto o seu rosto para que minhas entranhas não fiquem à mostra. talvez meus amigos não gostem de vê-las espalhadas pelo chão, sob o sol quente.
você é minha completude, minha versão perfeita.
me perdoe por todas as vezes em que te temi; as vezes em que te vi pelos cantos dos olhos e senti vontade de regurgitar de pavor; as noites em que não consegui dormir porque sentia você me observando.
que bom que habitamos o mesmo corpo.



que profundo!!!!!! deixo aqui meus elogios à sua escrita, amiga! que texto delicado e visceral, ao mesmo tempo.